Posicionamento cristão diante do cenário político – Parte 2

Posicionamento cristão diante do cenário político – Parte 2

Princípios cristãos como norteadores. O que a bíblia diz?

O país vive uma crise de representatividade, isso se estende aos inúmeros setores sociais e surpreendentemente, candidatos eleitos cristãos nem sempre estão conectados à ideologia do cristianismo, onde em relação aos evangélicos, isso se agrava. Dois fatores são determinantes para a crise da representatividade evangélica: primeiro, como são diversas as denominações protestantes, cada político cristão fica preso às doutrinas e hábitos de sua própria comunidade evangélica, em sinal de lealdade à igreja que o elegeu(estratégia de manutenção do curral eleitoral), muitas vezes usando a máquina pública para efetuar o merchandising da sua instituição religiosa em detrimento de outras, gerando segregação entre os evangélicos no legislativo e executivo; segundo, a cultura evangélica é enrijecida, não aberta ao diálogo, isso dificulta o debate com outros representantes políticos de outras religiões ou bases ideológicas, o que cria morosidade na votação, liberação e na realização de projetos e políticas públicas em prol da comunidade.

O Tribunal Eleitoral (TSE) tem tentado diminuir ao máximo a influência da religião do candidato em sua caminhada política, combatendo a base do processo, coibindo o “voto de cabresto” nas igrejas. Hoje, pedir votos em igrejas é considerado abuso de poder, com possível punição de cassação do registro do candidato e multa para a igreja permissiva. Contudo, essa medida não cessa plenamente a associação entre religião e eleição. Diante disso, cabe ao fiel observar de maneira crítica a cosmovisão cristã de seu candidato e se o mesmo tem conduta dialógica desejável.

A laicidade da forma como tem sido interpretada pelas vozes seculares jamais existiu no Brasil e não parece proveitoso que seja, pois instituições religiosas têm desde a construção do território brasileiro como nação, assumido papéis em que o estado não consegue penetrar, como em obras de assistência social, acessos à lazer, ações de cidadania , educação e saúde. Maquiavel no livro “o príncipe” reitera que o objetivo da religião é promover obediência civil sem o uso da força, com desenvolvimento das artes da paz, onde a força não pode ser o elemento fundamental para levar à obediência, mas sim à civilidade. Assim, o cristianismo ensina a reconhecer e a obedecer regras políticas à partir dos mandamentos cristãos, através do que descreve como “timore di dio” (temor à deus). ora, as leis civis, quando apresentadas como simples vontades soberanas do estado, têm uma eficácia muito menor do que se aparecem como mandamentos divinos, logo não é à toa que símbolos religiosos cristãos sejam encontrados em espaços dos poderes públicos, assim Maquiavel afirma: “nunca houve um legislador que tenha dado leis extraordinárias a um povo e não tenha recorrido a Deus, pois de outro modo não seriam aceitas.” logo, o político elegível cristão tem que antes de todas as coisas demonstrar clareza sobre seu posicionamento ideológico, compreendendo a grandiosidade da ferramenta que tem nas mãos, porém sem perder a ética, visto que o cristianismo se constitui no meio de persuasão privilegiado para fazer com que o povo admita um bem do qual a razão, tão-somente, não bastaria para convencê-lo. A utilização da ideologia cristã de forma prudente torna-se a garantia mais segura do êxito do estado e o fiel não pode ser ingênuo à ponto de perder a percepção dessas nuances.

Alguns versículos bíblicos dão legitimidade a participação ativa do cristão no contexto político, porém norteiam suas ações, através da ordem, da decência e da lisura. Em 1 Pedro 2.17, Tito 3. 1-2 e Romanos 13. 1-7, há a questão da conduta do eleitor cristão em obediência ao governante ou representante eleito, neles a obediência é premissa indubitável.

Respeitem todas as pessoas, amem os seus irmãos na fé, temam a Deus e respeitem o Imperador
1 Pedro 2.17
Recomende aos irmãos que respeitem as ordens dos que governam e das autoridades, que sejam obedientes e estejam prontos a fazer tudo o que é bom. Aconselhe que não falem mal de ninguém, mas que sejam calmos e pacíficos e tratem todos com educação.
Tito 3. 1-2
Obedeçam às autoridades, todos vocês. Pois nenhuma autoridade existe sem a permissão de Deus, e as que existem foram colocadas nos seus lugares por ele.  Assim quem se revolta contra as autoridades está se revoltando contra o que Deus ordenou, e os que agem desse modo serão condenados. Somente os que fazem o mal devem ter medo dos governantes, e não os que fazem o bem. Se você não quiser ter medo das autoridades, então faça o que é bom, e elas o elogiarão. Porque as autoridades estão a serviço de Deus para o bem de você. Mas, se você faz o mal, então tenha medo, pois as autoridades, de fato, têm poder para castigar. Elas estão a serviço de Deus e trazem o castigo dele sobre os que fazem o mal. É por isso que você deve obedecer às autoridades; não somente por causa do castigo de Deus, mas também porque a sua consciência manda que você faça isso. É por isso também que vocês pagam impostos. Pois, quando as autoridades cumprem os seus deveres, elas estão a serviço de Deus. Portanto, paguem ao governo o que é devido. Paguem todos os seus impostos e respeitem e honrem todas as autoridades.
Romanos 13. 1-7

Mas a bíblia também enaltece a importância da intercessão em prol das autoridades, que é particularidade do servo de Deus, e é incentivada em 1 Timóteo 2. 1-2.

Em primeiro lugar peço que sejam feitos orações, pedidos, súplicas e ações de graças a Deus em favor de todas as pessoas. Orem pelos reis e por todos os outros que têm autoridade, para que possamos viver uma vida calma e pacífica, com dedicação a Deus e respeito aos outros.
1 Timóteo 2. 1-2.

A necessidade de submissão à vontade de Deus e subserviência às autoridades são descritas em Mateus 22. 17-21 , Mateus 28.18, Filipenses 3.20, Provérbios 8. 15-16 e Êxodo 22.28.

Mas Jesus percebeu a malícia deles e respondeu:
— Hipócritas! Por que é que vocês estão procurando uma prova contra mim?
Tragam a moeda com que se paga o imposto!
Trouxeram a moeda, 20e ele perguntou:
— De quem são o nome e a cara que estão gravados nesta moeda?
Eles responderam:
— São do Imperador. Então Jesus disse:
— Deem ao Imperador o que é do Imperador e deem a Deus o que é de Deus.

Mateus 22. 17-21
Então Jesus chegou perto deles e disse:
— Deus me deu todo o poder no céu e na terra.

Mateus 28. 18
Mas nós somos cidadãos do céu e estamos esperando ansiosamente o nosso Salvador, o Senhor Jesus Cristo, que virá de lá.
Filipenses 3.20
Eu ajudo os reis a governarem e os governantes a fazerem boas leis. Os governadores governam com a minha ajuda, e também todas as autoridades e pessoas importantes da terra.
Provérbios 8. 15-16
Não rogue pragas contra Deus e não amaldiçoe nenhuma das autoridades do seu povo.
Êxodo 22.28

Entendendo que a política se constrói no contexto das relações entre governante e governado, a conduta do governante cristão não é esquecida, sendo explicitada na bíblia em Provérbios 28.16, Provérbios 29.2, Provérbios 28.2, Provérbios 16.10, 2 Samuel 23. 3-4, Salmos 94. 20-23, Provérbios 31. 8-9, Deuteronômio 1.13 e Provérbios 29.4.

O governador sem juízo será um ditador cruel; aquele que odeia a desonestidade governará por muito tempo.
Provérbios 28.16
Quando os honestos governam, o povo se alegra; mas, quando os maus dominam, o povo reclama.
Provérbios 29.2
Quando a nação tem líderes inteligentes e sensatos, ela se torna forte e firme; mas, quando a nação peca, ela muda de governo a toda hora.
Provérbios 28.2
O rei fala com autoridade divina; ele não erra nos seus julgamentos.
Provérbios 16.10
O Deus de Israel falou, o protetor de Israel me disse: “O rei que governa com justiça, que governa respeitando a vontade de Deus é como o nascer do sol numa madrugada sem nuvens, como o sol que faz a grama brilhar depois da chuva.”
2 Samuel 23. 3-4
Tu não queres nada com juízes desonestos, pois eles fazem a injustiça parecer justiça, ajuntam-se para prejudicar as pessoas honestas e condenam à morte os inocentes. Mas o Senhor me defende; ele é a minha rocha e o meu abrigo. Ele castigará esses juízes por causa das injustiças que eles têm cometido; o Senhor, nosso Deus, os destruirá por causa dos seus atos de maldade.
Salmos 94. 20-23
Fale a favor daqueles que não podem se defender. Proteja os direitos de todos os desamparados. Fale por eles e seja um juiz justo. Proteja os direitos dos pobres e dos necessitados.
Provérbios 31. 8-9
Portanto, de cada tribo escolham homens sábios, inteligentes e competentes, para que eu os ponha como chefes de vocês.”
Deuteronômio 1.13
Quando o governo é justo, o país tem segurança; mas, quando o governo cobra impostos demais, a nação acaba na desgraça.
Provérbios 29.4

Como o cristão deve se posicionar? Alguns exemplos bíblicos

Os versículos bíblicos por si só levam à tomadas de decisões mais assertivas diante de contextos políticos, contudo alguns exemplos bíblicos dentre os inúmeros, de homens que se relacionaram diretamente nesses nichos são Daniel, José, Davi e Mordecai (Também conhecido como Mardoqueu). Observando as reações desses homens diante de desafios políticos, é possível enriquecer o acervo moral e ter exemplos de condutas agradáveis à luz da palavra. Mordecai, Daniel e José são exemplos de homens que foram inseridos em territórios estrangeiros, de culturas absolutamente diferentes de suas pátrias e que, após suas ações em benefício das autoridades e governos locais, foram nomeados administradores de grande renome, não esquecendo de influenciarem em decisões que pudessem beneficiar as comunidades e povos de suas origens, à partir de seus prestígios políticos, tendo a ética como princípio norteador.

Mordecai ou Mardoqueu

Exemplo de lealdade

O judeu Mordecai (ou Mardoqueu), remete ao legado da lealdade ideológica tão discutida hoje e que tem sido um dos maiores problemas na crise de representatividade política. No livro de Ester, ele se manteve firme em todas as situações, quer fossem favoráveis ou não, e ao contrário de muitos cristãos, não apenas orou, mas também agiu de maneira determinada para buscar ajuda para os judeus.

O judeu Mardoqueu foi o segundo na hierarquia, depois do rei Xerxes. Era homem importante entre os judeus e foi muito amado por todos os judeus, pois trabalhou para o bem do seu povo e promoveu o bem-estar de todos eles
Ester 10:3

Daniel

Exilado como escravo na babilônia

Daniel, estava exilado na Babilônia, como escravo, porém sua integridade e inteligência emocional, o levaram a posições de destaque. Como figura pública, jamais faltou com a verdade, porém em seu relacionamento com as autoridades vemos um homem, além de fiel, extremamente discreto. Suas atitudes no cenário político resultaram em reconhecimento inquestionáveis:

Ora, Daniel se destacou tanto entre os supervisores e os sátrapas por suas grandes qualidades, que o rei planejava colocá-lo à frente do governo de todo o império. Diante disso, os supervisores e os sátrapas procuraram motivos para acusar Daniel em sua administração governamental, mas nada conseguiram. Não puderam achar falta alguma nele, pois ele era fiel; não era desonesto nem negligente
Daniel 6:3,4

José

Bem sucedido no Egito

No Egito, José foi extremamente bem-sucedido em sua trajetória política e administrativa, em grande parte por sua proatividade. Ele personifica qualidades necessárias ás figuras que ocupam cargos públicos de liderança, tendo a visão apurada para identificar problemas, mas também solucioná-los, as estratégias administrativas demonstradas por José nos momentos de crise econômica, são imprescindíveis à governantes:

Por isso o faraó lhes perguntou: Será que vamos achar alguém como este homem, em quem está o espírito divino? ” disse, pois, o faraó a José: “Uma vez que Deus lhe revelou todas essas coisas, não há ninguém tão criterioso e sábio como você. Você terá o comando de meu palácio, e todo o meu povo se sujeitará às suas ordens. Somente em relação ao trono serei maior que você”. E o faraó prosseguiu: “Entrego a você agora o comando de toda a terra do Egito
Gênesis 41:38-41

Davi

Um governante que seguia os princípios de Deus

Por fim, a história de Davi descreve a completa trajetória de um cidadão com inclinação à vida política, desde os primeiros passos como cidadão comum (o “eleitor” da atualidade) e aprendiz, até o momento da ascensão política, como governante. Ele remete aos exemplos de percalços da vida pública, às oposições sofridas, às brigas por poder e principalmente às alianças necessárias a serem formadas mediante o cenário econômico em voga. O líder político tem que ter a capacidade de fazer a leitura, com exatidão, do contexto econômico-social em que está inserido e estar aberto à diálogos e alianças sem trair suas convicções ideológicas. Essa mobilidade diplomática tornou Davi um exemplo de governante  que ultrapassa tempo e história.

Então Aquis chamou a Davi e lhe disse: “Juro pelo nome do Senhor que você tem sido leal, e ficaria contente em tê-lo servindo comigo no exército. Desde o dia em que você veio a mim, nunca desconfiei de você, mas os governantes não o aprovam. Agora, volte e vá em paz! Não faça nada que desagrade os governantes filisteus
1 Samuel 29:6,7

Os exemplos bíblicos são de homens que não se revoltaram com seus líderes, enquanto liderados, que sempre preservaram princípios como fidelidade, lealdade, integridade, mansidão e ética. Homens equilibrados, doutos, que sempre buscaram se cercar de indivíduos igualmente influenciadores, mantendo assim boas relações em sua caminhada no poder. Também quando no anonimato, não burlaram regras nem leis impostas, não deixando de recorrer à palavra, jejum e oração, contudo aproveitando as oportunidades para realizarem as obras que lhes foram confiadas processualmente. Também por etapas a construção de cada cidadão cristão torna-se mais suscetível ao sucesso, e como acontece com todo indivíduo, seu protagonismo político deve ser incentivado, todavia sempre sob a luz da palavra. O cristão precisa estar atento a se inserir em contextos políticos como mediador de conflitos, buscando posicionar-se em prol da vida e da paz, não em detrimento da derrota ou massacre de outros, mas tendo como alvo o desenvolvimento de uma democracia saudável, não permissiva, e sim inclusiva.

Para reflexão:

Evangelho de Mateus capítulo 5

Autora: juliana Chinelli

Referências bibliográficas parciais

1) BÍBLIA SAGRADA. Versão Revista e Corrigida. Tradução João Ferreira de Almeida. 2ª Edição 2009. Ed. King’s Cross

2) DOSSIÊ DESAFIOS DA CONSOLIDAÇÃO DEMOCRÁTICA NA AMÉRICA LATINA – Representação, Crise e mal-estar institucional.  NOGUEIRA, Marco Aurélio. Artigo Periódico Sociedade e Estado – Soc. estado. vol.29 no.1 Brasília Jan./Apr. 2014

3) RELIGIÃO E POLÍTICA NA AMÉRICA LATINA: uma análise da legislação dos países.  ORO, Ari Pedro e URETA, Marcela. Universidade Federal do Rio Grande do Sul Brasil e Universidade de Paris III – França. Artigo Periódico Horizontes Antropológicos – Horiz. antropol. vol.13 no.27 Porto Alegre Jan./June 2007

4)O PRINCIPE.  MAQUIAVEL, Nicolau. Tradução Maria Flavia dos Reis Amambahy. Ed. Ideia Juridica. 2014 1ª edição

5) POSICIONAMENTO CRISTÃO EM MEIO AO ATUAL CENÁRIO POLÍTICO E SOCIOECONOMICO BRASILEIRO.  http://www.adsmc.com.br/artigo. Equipe Baruk

6) RELIGIÃO E PARTICIPAÇÃO POLÍTICA: Considerações sobre um pequeno município brasileiro. OLIVEIRA, Fabrício Roberto Costa. 2011.  Artigo Periódicos E CADERNOS CES

7) CRISTIANISMO E POSICIONAMENTO POLÍTICO. BOCHIO, Diogo. Setembro 2010. Rev.eletrônica Proposta Cristã – A relevância do cristianismo para a Sociedade Contemporânea

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