Posicionamento cristão diante do cenário político – Parte 1

Posicionamento cristão diante do cenário político – Parte 1

CENÁRIO DA POLÍTICA NACIONAL E MUNDIAL

Em 2018 o país viveu um ano eleitoral onde a nação decidiu mais uma vez quem seria o presidente da república e, relembrando a experiência vivida naquele ano, é inegável relatar que o Brasil ficou dividido, reproduzindo um cenário dicotômico. Ainda que tivessem outros candidatos, as eleições de 2018 se resumiram em torno de dois personagens, em parte esse cenário se deu incentivado pelos meios midiáticos como estratégia política para induzir a um segundo turno , como também para fomentar na mentalidade popular a luta do “bem” contra o “mal”, desta forma ficou notável, que diferente das eleições anteriores, a influência religiosa foi determinante no resultado. Para refletirmos sobre a fragilidade do processo eleitoral e sobre a liquidez nas convicções do eleitorado, é preciso compreender que vivemos uma democracia muito nova e exercê-la requer aprendizado.

Primeiramente, a dissociação da igreja do estado, ou seja, o estado laico de direito surgiu em 1890, assim a igreja católica que antes estava diretamente ligada às decisões políticas, agora estava com sua influência reduzida. Nos países latinos a laicidade nunca foi amplamente entendida, pois a partir da lógica laica a religião não passaria a ter ausência de influência, e sim, influência descentralizada. Estado laico não significa estado sem religião, estado laico significa um estado aberto às vozes de diversas religiões. Nesse contexto, a comunidade evangélica foi beneficiada, pois teve ambiente favorável como grande influenciadora política, através de diversas instituições religiosas, de diversas denominações.

Por outro lado, é importante ressaltar o boom neopentecostal, na década de 80, como coparticipe influenciador, adeptos da teologia da prosperidade, esse nicho religioso veio com imensa força política, pois aliava poder religioso ao poder financeiro, sendo em parte grande financiador de campanhas e curral eleitoral para candidatos dispostos, em alguns casos, a realizarem as demandas dessas igrejas. A isso também, somou-se a inserção dessas denominações como proprietárias de canais televisivos e estações de rádio, estendendo sua influência aos meios de comunicação.

Um novo cenário político-religioso passou a ser desenhado, enquanto de um lado a igreja católica se posicionava com um discurso mais propício ao diálogo (como uma nova perspectiva democrática), as comunidades evangélicas surgiam com um posicionamento mais agressivo/ativo. E em 2018, todas as comunidades cristãs resolveram se unir, com exceções é claro, apoiando um candidato especificamente, ao ponto de fazerem “marchas”, protestos e passeatas em prol de convicções ideológicas, mais do que nas décadas anteriores.

Movimento ideológico pós ditadura militar – após repressão a reação

Situações extremistas tendem a alimentar reações igualmente extremas. Após um período de forte censura e combate à liberdade de expressão, sejam nas artes, na cultura, nos meios de comunicação, a ditadura coibiu quaisquer estratégias de influências sociais, combatendo ferozmente os formadores de opinião que estivessem ideologicamente em desacordo ao estado. Inevitavelmente, após a queda da ditadura, a constituição de 88 e o presidencialismo o movimento foi inversamente proporcional, a dita “esquerda” começou em disparado crescimento, e todos os partidos políticos contrários ideologicamente às forças políticas ligadas ao militarismo começaram a crescer vertiginosamente. O movimento hippie ganhou força, as artes antes oprimidas agora estavam livres para se expressarem sem a necessidade de passarem por um crivo estatal, onde também havia a “lógica mercadológica”, inclusive nas produções culturais, ou seja, o apetite do público aliado a um bom marketing sugestionavam o consumo cultural da população e, essa linha de raciocínio veio a se estender aos resultados nos processos eleitorais (o poder na mão do povo através do voto). Desta forma, o marketing e a publicidade foram impulsionados junto ao jornalismo, e iniciou-se o embrião de uma nova ditadura, velada, a do “politicamente correto”.

É importante ressaltar que a mídia como formadora de opinião é de altíssimo poder de combate, para ratificar essa informação há a lembrança da guerra fria, onde os EUA determinaram sua vitória através das indústrias cinematográficas e musicais, de certa forma “impondo” a cultura de sua nação aos países indecisos. Essa influência cultural, abriu portas de negociação e o capitalismo americano expandiu-se, vencendo a guerra contra a ideologia e economia soviética. As manifestações culturais e midiáticas como aliadas na manutenção e perpetuação de poder são de tempos remotos, remetendo à cultura romana do “pão e circo”, onde as decisões políticas e econômicas eram tomadas, enquanto a população permanecia alheia às tais, “embriagada” pelo fornecimento de subsistência alimentar mínima e lazer. Nesse ínterim, políticas públicas, muitas vezes promotoras de desigualdades e prejudiciais à grande massa, eram perpetradas.

No contexto econômico, a abertura dos mercados com a política neoliberal na década de 90 foi de encontro à globalização, isso ocasionou uma legitimação na expansão do alcance dos meios midiáticos e determinou a inovação das comunicações sociais através das ampliações das redes sociais e dos acessos à internet para a população geral, de diversas classes. Também a demanda por aparelhos eletrônicos e a telefonia celular como instrumentação desses acessos, ampliou um novíssimo nicho mercadológico. Por outro lado, no contexto político-social, a constituição de 88 permitiu um outro tipo de acesso, o acesso à educação básica a todos e, influenciou a facilitação do acesso às universidades, por políticas públicas diversas e ações afirmativas, como o sistema de cotas, como resultado da influência das ideologias partidárias de esquerda. Nesses espaços, o empoderamento das ditas “minorias” que haviam sido negligenciadas ou oprimidas na ditadura, agora, num movimento de revés, e união com os meios de comunicação ampliaram ações de democracia deliberativa através dos conselhos de comunidade (líderes comunitários, representatividade deliberativa, influência de ongs, etc.). Toda essa manifestação popular de vozes que antes não tinham inserção política, agora representava uma força opressora a setores da sociedade que eram “blindados” no período militar, dentre eles as instituições tradicionais, como as igrejas cristãs.

Desta forma, a política em prol das minorias passou a representar uma ditadura ideológica e desigual. Assim, uma contra resposta da sociedade, encabeçada por setores mais conservadores, começou a surgir: contra a liberalidade e em prol do resgate de valores morais. Partidos de direita então foram fortalecidos por esses setores e as bancadas cristãs no senado passaram a ter ênfase.

Processo em construção pós ditadura ideológica– após reação a contrarreação

Alguns fatores apressaram a contra resposta da classe média e setores conservadores da sociedade, dentre eles o fato de o Brasil, como país emergente ter entrado em processo de estagnação econômica, além do amplo acesso das classes menos favorecidas em todos os ambientes, que passou a afetar de forma competitiva o acesso aos mesmos espaços das classes maioritárias e detentoras do poder. Também é preciso ressaltar que o país vive uma democracia muito jovem e, por isso, imatura, onde a maioria da população ainda não está preparada para confrontos ideológicos sem reações violentas, o que é bem perceptível nos fenômenos “haters”, que são internautas que disseminam o ódio através das redes. Desta forma, o cenário de oposição, em especial aos partidos de esquerda e centro-esquerda estava formado, e a resistência às críticas se tornou insustentável, produzindo o resultado eleitoral em 2018.

A reflexão sobre em qual lócus a igreja está inserida é imprescindível. Se uma das respostas contra a ditadura militar foi a teologia da libertação, com o teólogo Leonardo Boff como principal expoente, atualmente uma das respostas a ditadura do politicamente correto tem sido o fundamentalismo, e respostas teológicas não são verdades absolutas, elas são movimentos em busca de manutenção ou ganho territorial de poder. Nesse tocante, o cristão precisa encontrar seu posicionamento ideológico, não de enfraquecimento ou nulidade, nem tampouco de intolerância ou extremismo, mas em busca de equilíbrio.

Continua…

Para reflexão: “Mas Deus é o juiz; a um abate e a outro exalta”. Salmos 75.7

Juliana Chinelli

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS PARCIAIS

1) BÍBLIA SAGRADA. Versão Revista e Corrigida. Tradução João Ferreira de Almeida. 2ª Edição 2009. Ed. King’s Cross

2) O ESTADO LAICO E A LIBERDADE RELIGIOSA. Seminário Internacional sobre o Estado Laico e a Liberdade Religiosa, realizado pelo CNJ, em Brasília, em junho de 2011. FILHO, Ives Gandra da Silva Martins E NOBRE, Milton Augusto de Brito

3) DITADURA MILITAR BRASILEIRA E PRODUÇÃO IDEOLÓGICA: Um estudo de caso com militares que atuaram no período ditatorial. PIRES, Thiago Vieira. Revista Cantareira – Edição 20 / jan -jun, 2014

4) IDEOLOGIA E DITADURA MILITAR: A IMAGEM DO REGIME CONSTRUÍDA NA IMPRENSA BRASILEIRA DURANTE O REGIME MILITAR NO PAÍS (1964 – 1985). LIMA, Érico de Oliveira de Araújo. Universidade Federal do Ceará, Fortaleza, Ceará. 7º Encontro Nacional de História da Mídia – Mídias Alternativas e Alternativas Midiáticas, 2009

5) PINTO, Tales dos Santos. “Igrejas e ditadura no Brasil”; Brasil Escola. Disponível em: https://brasilescola.uol.com.br/historiab/igrejas-ditadura-no-brasil.htm

6) A ditadura do politicamente correto e o direito de discriminar . Gazeta do Povo <https://www.gazetadopovo.com.br/rodrigo-constantino/artigos/ditadura-politicamente-correto-e-o-direito-de-discriminar>

7) ditadura ideológica. Justificando mentes inquietas pensam direito <http://www.justificando.com/tag/ditadura-ideologica/>

8) Extremismo evangélico. Super Interessante. <https://super.abril.com.br/historia/extremismo-evangelico/>

9) O voto evangélico garantiu a eleição de Jair Bolsonaro. Instituto Humanitas Unisinos. < http://www.ihu.unisinos.br/78-noticias/584304-o-voto-evangelico-garantiu-a-eleicao-de-jair-bolsonaro>

10) A ELEIÇÃO DISRUPTIVA: POR QUE BOLSONARO VENCEU. MOURA, Maurício E CORBELLINI, Juliano. Tomo Editorial, 2019

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